Natal

A gente corre, corre
E a felicidade sempre escapa
E no rádio
Simon & Garfunkel:
Hello, darkness, my old friend.

Ágatha

Ágatha não era Christie.
Não foi dela que saiu uma história de crime, como no Expresso Oriente.
Ágatha era a vítima, baleada numa van periférica, no Alemão.
E não era sequer a Alemanha, que confinava gente em trens a caminho da morte.
Era um complexo de guetos muito maior do que o de Varsóvia, que confinava gente em transportes irregulares e espaços indesejáveis, sendo caminho e destino de morte.
Não estamos na primeira metade do século XX.
É futuro que faz cosplay de passado e encontra na ignorância, a fé irrestrita em deuses que fazem apologia a assassinatos.
Snipers apóstolos com rifles cajados, que oram: dedo no gatilho, para transformar corpos negros em vinho tinto de sangue.
Ágatha não era Anne Frank e nunca estivera distante geográfica e imageticamente.
E isso, a classe média não perdoa.

Quarup

Parece que chego ao fim,
Hoje ou qualquer dia.
E, se olhar no espelho
E ver fantasmas,
Parece ser agora cotidiano.
Quando o âmago dói,
Cria crosta, calcifica dor,
Pesa alma,
Arqueia costas.
Cotovelos secos,
Solitude não egoísta
É a minha lei.
No meu condado,
Sou delegado,
Xerife sem estrelas,
Juiz de minhas derrotas,
Acusador e réu.
Debato monólogos infindáveis
E sempre ganho de mim mesmo.
Ao fim, sempre um troféu de lata,
Ansiolítico mental,
Placebo de alma.

O Super Homem está nu

O super homem está nu
Ontem, gigante, inflado
Em gramados e corações
Toga e capa preta ao vento

O juiz estrela era divindade
Um messias, salvador da pátria
De uma pátria órfã
De um messianismo utópico

De coragem espartana e coração de Sassá Mutema
Hoje, sobrou a moral baixa
Que desce como lama de rejeitos
Contaminando tudo

E no espelho da vaidade
Tenta suas últimas cartadas
Que se mostra, sem-vergonha
Em um triste monólogo de um palhaço decadente

O circo está vazio
Só sobrou ele e seu ego

Fenômeno fantasma

Dói.
Dói.
Tem dia que dói mais!
Quando acordamos com um vazio
Como o de um apartamento vazio,
Que já fora recheado de objetos e de amor.
E como dói!
Mas não é dor pontiaguda.
É uma dor vazia,
Como a dor do universo
Que inexiste dentro de um buraco negro,
Ou a dor de um membro amputado,
Que se sente, mas não está lá.
É uma dor que não dói comum.
É uma dor que dói faltando.
É a dor da inexistência de uma dor física,
Mas que na alma dói mais.
É dor como que caindo num poço sem fim,
Girando e girando
E nunca chegando ao fim.
Porque parece de fato não ter fim,
Nem impacto
Que faça cessar essa dor.
Só o vazio.
E no fim, parece que nos acostumamos
A sobreviver ou inexistir.

Caracas… o Haiti não é aí

Enquanto uns querem beber petróleo
E ensaiam uma invasão sob falso pretexto
Vizinhos comem barro, como manjar
E definham a espera de ajuda, enquanto chacoalham em potentes terremotos
Dançam sem querer dançar
Mexem esqueletos, até quebrá-los
Gente partida ao meio
Meia conversa, meio caráter, meia moral
E não importam os meios
Enquanto os fins forem falsamente justificados
Eu e você não somos nada
Poeira intergaláctica na hora e no lugar errado
Esmagados pelo tanque “imperiocentrista”, com bandeira em riste.
A SS usa máscara de Mickey Mouse
E bate continência ao Rei dos Ratos.

Sina

Nem Doctor Brown e Marty McFly poderiam imaginar
Que para voltar no tempo
Não era necessário um capacitor de fluxo
Mas, somente, fake news e muito ódio temperado
Para nós fazer viajar para 1964
E a sorte é que o ano não esteja errado
E que não voltemos para 1968
Porque aí não há DeLorean capaz para barrar novos AI-5 e retrocessos potencializados

A máquina do tempo existe
Mas a marcha está quebrada na ré
E ela só vai para o passado

Máquina de moer

Cartola cantou
O mundo é um moinho.
Acertou como quem acerta a porra da Mega-Sena,
Acumulada
De tanto triturar sonhos.
Nada é o que queremos.
A vida sempre está lá para te nocautear,
Para te mostrar que você não é nada.
É só carne moída,
Para lá e para cá,
Dançando pela força motriz
Das engrenagens do universo.
É pó de gente,
Esmagado
Pelo pilão invisível
Mas que tem peso descomunal.
Toneladas de realidade
Esmagando cada osso do seu corpo
Até não sobrar mais nada.
Mas sempre sobra,
É o que dizem, pelo menos.
É aquele grão do que tu era
Jogado à terra como pérolas aos porcos,
Que enraíza e cresce,
Floresce
E segue,
Para não enxergar, mais uma vez, moinhos e pilões
Que teimam em se mostrar.
Mas nossos olhos só enxergam
Iscas acesas
Em telas de celular.

Somos peixes seguindo a luz da noite.
Pegos nas redes que a vida nos dá.