fotografias post mortem

A vida
É como um desfile do São Paulo Fashion Week
Os mortos pelo caminho
E os sorrisos
Na coluna social

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Fenômeno fantasma

Dói.
Dói.
Tem dia que dói mais!
Quando acordamos com um vazio
Como o de um apartamento vazio,
Que já fora recheado de objetos e de amor.
E como dói!
Mas não é dor pontiaguda.
É uma dor vazia,
Como a dor do universo
Que inexiste dentro de um buraco negro,
Ou a dor de um membro amputado,
Que se sente, mas não está lá.
É uma dor que não dói comum.
É uma dor que dói faltando.
É a dor da inexistência de uma dor física,
Mas que na alma dói mais.
É dor como que caindo num poço sem fim,
Girando e girando
E nunca chegando ao fim.
Porque parece de fato não ter fim,
Nem impacto
Que faça cessar essa dor.
Só o vazio.
E no fim, parece que nos acostumamos
A sobreviver ou inexistir.

Caracas… o Haiti não é aí

Enquanto uns querem beber petróleo
E ensaiam uma invasão sob falso pretexto
Vizinhos comem barro, como manjar
E definham a espera de ajuda, enquanto chacoalham em potentes terremotos
Dançam sem querer dançar
Mexem esqueletos, até quebrá-los
Gente partida ao meio
Meia conversa, meio caráter, meia moral
E não importam os meios
Enquanto os fins forem falsamente justificados
Eu e você não somos nada
Poeira intergaláctica na hora e no lugar errado
Esmagados pelo tanque “imperiocentrista”, com bandeira em riste.
A SS usa máscara de Mickey Mouse
E bate continência ao Rei dos Ratos.

Sina

Nem Doctor Brown e Marty McFly poderiam imaginar
Que para voltar no tempo
Não era necessário um capacitor de fluxo
Mas, somente, fake news e muito ódio temperado
Para nós fazer viajar para 1964
E a sorte é que o ano não esteja errado
E que não voltemos para 1968
Porque aí não há DeLorean capaz para barrar novos AI-5 e retrocessos potencializados

A máquina do tempo existe
Mas a marcha está quebrada na ré
E ela só vai para o passado

Máquina de moer

Cartola cantou
O mundo é um moinho.
Acertou como quem acerta a porra da Mega-Sena,
Acumulada
De tanto triturar sonhos.
Nada é o que queremos.
A vida sempre está lá para te nocautear,
Para te mostrar que você não é nada.
É só carne moída,
Para lá e para cá,
Dançando pela força motriz
Das engrenagens do universo.
É pó de gente,
Esmagado
Pelo pilão invisível
Mas que tem peso descomunal.
Toneladas de realidade
Esmagando cada osso do seu corpo
Até não sobrar mais nada.
Mas sempre sobra,
É o que dizem, pelo menos.
É aquele grão do que tu era
Jogado à terra como pérolas aos porcos,
Que enraíza e cresce,
Floresce
E segue,
Para não enxergar, mais uma vez, moinhos e pilões
Que teimam em se mostrar.
Mas nossos olhos só enxergam
Iscas acesas
Em telas de celular.

Somos peixes seguindo a luz da noite.
Pegos nas redes que a vida nos dá.

Ainda por aqui!

Como quem desceu a Sierra Maestra
Como quem ocupou Paris, naquela primavera
Como quem combateu em Rojava
Como quem lutou na Guerra Civil Espanhola
Como quem fez de Canudos um sonho
Como quem fez do sonho Palmares
Como quem lutou contra a ditadura
Como quem foi torturado e assassinado
Continuaremos aqui
E seremos resistência!
Nosso verbo é luta!
E nossa luta tem permanência!
É rio perene
Que nunca seca!

DeLorean

quero gás, para cozinhar a esperança
ou gasolina, para dar combustível à mudança
ou como soaria na voz de Chico:
quero cheirar fumaça de óleo diesel,
me embriagar, mas que ninguém esqueça,
que o país do futuro
tem a velha mania de voltar no tempo,
com saudosismo delirante
que faz usar a máquina do tempo, como caixão!
e que jaz de tempos em tempos, a sete palmos do chão.

mas cova caiada
não permite enraizar nada.

Nero-Estado

prédio implode,
arrasta esperança em abismo
e sobra mais nada.
e o herói, como que escalando o Everest,
vai abaixo com uma montanha de entulhos.
Ibeji, Erês, Cosme e Damião,
Jazem agora debaixo de concreto.
o herói se sacrificou para salvar o futuro
que reside na inocência das crianças.
o World Trade Center é aqui!
atentado em forma de descaso,
especulação, indireto-assassinato!

O gatilho é um botijão de gás.

República Federativa do Ódio

Primeiro o ódio espreita
E se deixa ver por entre brechas,
Depois como metade
Que se traveste de dualidade.
Depois mostra a cara,
De riso frouxo,
Dentes salientes,
Baba escorrendo
E soluço débil.
Nas costas, mãos,
Nas mãos a raiva,
Que como faca
E como punhal
Perfura carne,
Rasga tez,
Da epiderme,
Derme,
Vasos,
Tendões,
Artérias,
Ao coração.
E quando vemos
Não sobra nada!
Uma nação que ama odiar!
Que para se enganar,
Faz transplantes de córneas
Mas se frustra quando percebe
Que não existem transplantes de alma.