Morte e vida Recife

Recife, terra de pequenos feudos. Antes, os grandes engenhos de açúcar, depois, as grandes usinas. Hoje, as fortalezas azulejadas com muralhas que impedem a visão e o correr da vida. Pequenos espaços estéreis, higienizados: Escandinávia aprisionada. Às margens, Sowetos tropicais, quilombolas fincadas em manguezais. Grandes SUVs não rasgam as vias. Elas estão paradas no trânsito, no tempo, na incontinuidade da vida. O aborto urbano, concretizado em grandes placas de concreto, que revestem o verde e os canais repletos de bosta. A única união social. Merda de pobre e de rico: unidas. A nossa democracia racial, real. Capitanias hereditárias do egoísmo e da segregação, herdadas por famílias de sobrenomes imponentes. Tão imponentes quanto os falos erguidos que enfenham a cidade e que tem por objetivo de vida, tornar-se uma Dubai fracassada. Dubai, o erro urbano elevado a enésima potência. Recife, subjugada pela ganância é assassinada lentamente. Eutanásia!

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À margem esquerda do zero central

Sou marginal, estou à margem do que é normal, do que é parâmetro, do que é coragem e do que é sofrer.

Me dizem mau, mal sabendo que o bem e o mal se agarram, se enlaçam e se manifestam no que é viver.

A sua ideia de justiça e moral não é tão diferente da minha, se você perceber. Sou um espelho d’água, uma imagem deformada e distorcida de você.

No seu Estado que se diz democrático eu não sei viver. Pois não sou bem vindo, homem primata, come-lixo, paisagem feia de se ver.

Não sou como os outros, dormindo nas escadarias das Igrejas, esperando um milagre que nunca vem.

Levo comigo na cintura o “Santo Graal” do meu ofício, com o gatilho pronto para o tiro. Duvidas? Pague para ver!

É tão Sui Generis generalizar, que me tiram a índole e viro uma aberração, monstro maldito inimigo de você.

E como já deixei de crer no seu céu sem alienígenas como eu, defendo a mim e aos meus pares sem ligar se vou morrer. Mate-me, morra-me, viva-te, viva-me assim como só se pode ser.

Primavera

Tic-tac bate o relógio, bate o ponto, bate-estaca. Planta a esperança em solo argiloso – entre raízes e ossos de gatos, afundam as vigas até o fundo da alma.

Apita, então é pausa. Levanta, caminha, se senta e descansa. Mãos grossas sem tino pro fino, só o espesso concreto da aura. E o rosto marcado, queimado de sol e de sombra, que se espalha qual uma praga de gafanhotos-esperanças – apagou-lhe, apagou-a.

Plantados no chão, tantas vidas, tantos sonhos, e o que fica enraíza e floresce em mudanças profundas e determinadas, sem fins nem meios: moral alheia flagelada.

São tantos solos, tantas cores, regados do sangue de tantas flores que um dia ousaram ousar. Até porque, nesse enorme país o horizonte só se avista ao longe, e o medo e a premissa se fundem em desproporcionais desigualdades verticais.

Mas enraizados na história também estão exemplos que se possa enfatizar.
E quem são os que não se lembram do garoto subestimado, que subiu nos mastros a destroçar bandeiras e a gritar: “nous sommes le pouvoir”?

Utopia

Olhemos para o futuro, cuidemos do instituto de nós mesmos
O amor, a amizade, a tristeza, a caridade, o dar e o receber.
Estenda as mãos e receba uma recompensa bem maior do que imaginastes
Toda a dor, toda a angústia, terá valido a pena ao menos por um dia.
Lugares, pessoas, ilusão, comportamentos, tudo isso igual à ontem
Mas se quisermos diferente do amanhã, da alvorada e do entardecer.
A noite cai e com ela os impérios, os exércitos e as grandes economias
Não mais se ajoelhar perante deuses, nem mais implorar por piedade
Pois a liberdade almejada se torna liberdade conquistada a partir do momento
Em que seus sonhos deixam de ser utopias, e que os mortos se levantam para vingar o passado.

Enfrentando ventos de 200 km/h

Quais ventos trazem os ares da mudança? Mormaços quase eternos nos deixam sonolentos. Quando nos erguemos e queremos ditar regras ao pilotar nosso próprio paraglider, dizem os fanáticos da Igreja do Controle do Tempo, que Deus manda furacões e tornados para nos derrubar. Éolo está sempre pronto para mandar para o inferno, quem ousar enfrentar a morosidade do calor cotidiano. Ventos um pouco mais frios são enviados por Éolo, vez ou outra, para que agradeçamos aos céus pela dádiva da esmola amena ocasional. Enquanto os imutáveis seres com os pés presos no concreto social, dão viva pelo o que têm, os surfistas marginais e mascarados estão loucos por mais um furacão, para que possam descer a maior onda de suas vidas e mostrar que viver vai muito além. No jornal matutino do dia posterior, são taxados de hereges por falsos climatologistas engravatados. Mas eles não ligam. Sabem que é difícil para os acorrentados no tempo, entender que podem andar além do que foi delimitado pelo clima hostil oficial.

A esperança pegou um trem sem volta

A esperança se perdeu no caminho de volta para casa. Pegou o trem errado – perdeu-se no espaço sem tempo para a razão. O sonho morreu nas bocas desdentadas de um povo doente – vivendo de falsas alegorias coletivas. Carnavais infindáveis de desgraças e fugas da realidade. A ponta do iceberg pesa os ombros da sociedade. Seu fedor mostra a carniça devorada por abutres do poder – hedonismos praticados por estupradores e usurpadores da vida e da liberdade. Algozes em pele de Deuses – desalmados não detentores de amor, só o lixo subcutâneo/ódio e rancor. A cegueira realmente contagia – Saramago profetizou ou já sabia. Essa é a vida, irreal, deturpada, oprimida, não vivida, apatia.

Sorriso de domingo

Era tarde de domingo e apesar do tédio que se escancara nesse dia em particular, talvez mais do que em outros, tentava se enganar – tentando rir de piadas sem graça de um gordo apresentador de um programa de TV sem conteúdo.

Mesmo com o calor infernal que fazia lá fora e torrava a cuca de quem exposto estava, havia algo de cinza no ar. Aliás, certos domingos são assim, para aqueles que tentam cuspir os últimos instantes de liberdade, antes da forca de segundas-feiras trabalhistas.

Sentado em sua nova poltrona que acabara de adquirir através do dinheiro-de-plástico-internacional, voltava seus pensamentos ao passado – a trajetória sofrida da labuta escrava ao qual se submetera para chegar ao topo, enfim valera à pena, pensou irrequieto sobre o couro branco e macio.

As noites mal dormidas adicionadas de café e comprimidos fizeram com que em dados momentos quase desistisse da escalada. Era mais difícil que escalar o K-2 ou o Everest pensava naqueles momentos. Mas hoje no topo da cadeia, o predador imponente ria, ao lembrar os que deixou para trás. Ele era o vencedor, o esperma que ganhou a corrida de girinos-humanos, o alpinista que venceu a montanha e sapateou em cima dela mostrando desrespeito.

Ele era maior do que tudo ao seu redor. Mas, por mais que tentasse, não conseguia mais enganar a si mesmo. Ainda era capaz de enganar qualquer pessoa com sua lábia de mercado. Mas a si, já não conseguia mais e esse fato acabara de vir a sua mente.

Naquele momento sentado na frente da TV, assistia a um programa que apesar das cores, dos sorrisos estampados e das atrações, não conseguia mais o atrair. Aquele homem que liderava as entrevistas e fazia questão de atrapalhar os entrevistados, acabara de se travestir em uma marionete esquisita, sem vida, inanimada.

De repente o iluminado apartamento no vigésimo quinto andar, desses que fazem os sonhos de muita gente, com quatro quartos, suítes em cada um deles, sala para dois ambientes, uma ampla varanda, cozinha e área de serviço, piso em porcelanato, as paredes decoradas por um arquiteto e paisagista de renome internacional, o teto tão bem esculpido como quase uma Capela Cistina se tornara grande demais para alguém sem ninguém. As cores antes cintilantes iam se tornando gris.

Há muito tempo, que todos que outrora o cercavam ficaram para trás, aliás, vale frisar, por conta dele mesmo. Da ganância, da falta de escrúpulos para chegar aonde chegou. Os familiares e os amigos não existiam mais para ele, e o que nunca havia feito falta, agora começava a latejar em seu peito.

Naquela noite, ao se deitar na suntuosa cama, demorou demais para dormir. Fato esse que não acontecia desde a época em que ainda lutava pelo o que considerava um lugar ao sol.

Pela primeira vez em muitos anos, sentiu falta da mãe, do pai, dos amigos. Finalmente resolveu fazer o que prometera a si mesmo nunca fazer. Indagou-se se realmente valera à pena desistir de todos em nome de si mesmo.
Preferiu não achar a resposta, afinal, a segunda o aguardava e esperava estar melhor do que julgara um sentimentalismo barato que o acometera.

Pediu um Lexotan ao serviço de delivery de uma farmácia e enfim apagou.

O monstro

Ontem, em uma noite bela e alegre o monstro mostrou a sua face. Não queria nem por um segundo, ter de olhá-lo nos olhos novamente. Matreiro, ele estava escondido nas profundas entranhas do meu ser, e quando os escudos falharam finalmente eu pude ver: a sua face era clara, não muito séria, não muito não hilária, tinha fogo nos olhos e dentes cerrados, o punho fechado como o coração, além de um riso sarcástico. Medo ele não tinha, não. Desferiu o primeiro golpe contra o rosto inimigo e o sangue que jorrava lhe provocava risos. Dançando em frenesi, era o próprio mal. Agora eu já não podia me reconhecer como alguém normal. Normal até do ponto de vista de quem está do lado de fora – de fato eu sei que o ódio é um câncer, que deve ser extirpado, levado embora, embora não saibamos quem de nós é o verdadeiro ser, que manda aqui dentro de nós mesmos. Quem é o dono de você? É nessa incógnita absurda de viver, que vivemos sem parar, até o dia em que o monstro desperta e vomita toda a merda acumulada em você. Quem está em baixo é que se ferra. Quem está em cima é que se fode. É puro ódio nos olhos e quando olho em volta, volto a ser quem era.

Mais uma vez

Ligo a TV, mais um escândalo político ecoa nos noticiários dessa república de desonestidade quase idiossincrática. Como resultado de um machine gun com o gatilho preso, vejo pedaços de gente por todos os lados – gente que não é da gente -, é da corja que habita o topo dessa cadeia que se projeta social, mas finda tão blue, e dizem ser sangue.

Mais um governador qualquer e não me preocupo em guarda-lhe o nome, como não é de sua preocupação deixar sob sua égide todos os Silvas mortos em filas de hospitais, nas calçadas sob efeitos das pedras que matam e sobre ratos. O que poderia restar de sua dignidade? Então senhor, para o inferno!

É difícil nessas terras de escassos dentes, ter de olhar a boca de um cavalo dado, como naquele dito popular. “Dado” é premissa que legitima o comodismo! Já que nos é imposto o amargo votar, não somos nós que recebemos, nós é que doamos – nos doamos.

Tenho pena dos que ainda acreditam na mentira de fábulas políticas que se escondem sob o nome da democracia. São falácias que gritam aos quatro cantos e povoam o imaginário popular através da pujança econômica de nosso País. O poder da economia existe sim, é claro. Mas cadê a parte que nos cabe?

Já não leio mais jornais como antigamente. É sempre o mesmo feijão com arroz sem tempero, ou salgado demais. Cadê o sabor? Que dá tato ao paladar toca o gosto que surge como manjar na língua – o doce gozar.

Eu quero é me empanturrar de notícias fortes, de verdades azedas, mas só há comidas torpes. Quero é que me arda a boca, como pimenta, jalapeños parciais, mas honestos, dedo na cara, nas feridas…

Cansei de débeis apresentadores de TV, erguendo o punho covarde e pedindo a morte dos corsários. Piratas vítimas e algozes sociais. O gordo engomado cuspindo preconceitos, quando a noite cai, se enclausura em seu moderno apartamento.

Gosto mesmo é de ver o circo pegar fogo, e queimar todos os palhaços vestidos de terno e gravata. Mas é triste constatar que quanto mais os combatemos, mais surge quem queira entrar para o Freak Show da política. Ad Infinitum, é a sensação que nos dá – a mulher barbada que o diga, pode perguntar

Um dia de fúria

Trim, trim, os telefones não paravam. Ele veio e jogou o meu árduo trabalho de alguns meses atrás em cima da minha mesa.

Gritava freneticamente como um louco, a baba vinha em minha direção – eu desviava como um bêbado desvia dos carros ao tentar atravessar uma rodovia movimentada.

“Incompetente”, ele gritava. “Vai pagar, você vai pagar”. Errei um “seis”, quer dizer, não coloquei um seis no lugar de um zero. Vai entender essa burocratização filha da puta. Minha cabeça parecia que ia explodir.

O meu trabalho consistia numa amarga certeza incerta. A certeza de que teria muita coisa para fazer de baixo de muita pressão e estresse.

A incerteza ficava por conta do salário, que devido a algum erro condicionado pelo trabalho excessivo de três pessoas feito apenas por uma, acabava por vir menor. Agora quanto viria, eu nunca sabia.

O meu chefe continuava gritando como um porco na fila do abate. Por um breve momento achei a cena um tanto quanto engraçada. Ele parecia que iria enfartar.

Seu rosto coberto de placas vermelhas, a veia saltando no pescoço, a baba voando de sua boca, o olho arregalado, os braços se movendo de forma rápida, e o seu ridículo tique nervoso que o fazia colocar a língua para fora como um cágado. E eu? Eu caí numa tremenda de uma gargalhada que ecoou por todo o escritório. Cabeças pululavam por cima das saletas divisórias de compensado. Talvez a palavra saleta fosse até um elogio, porque na verdade eram cubículos, como essas casas de passarinhos ou de ramisters.

O meu chefe ficou atônito, parecia que não acreditava no que via. Eu ria freneticamente. Sabe aquelas crises de riso? Pois bem, a minha barriga já doía demasiadamente e as lágrimas já escorriam pelo rosto. E eu que pensei que o ápice do meu desespero e estresse me levaria a explodir como num dia de fúria Hollywoodiano, à la Michael Douglas, onde pegaria minha mochila e sairia sem dizer nada, enquanto via a reação de surpresa do meu chefe e a sua voz abaixando até ele gritar: “Aonde você pensa que vai?”. E eu fecharia a porta de vidro com tanta força que ela se estilhaçaria em milhares de pedaços de vidro temperado.

No corredor do empresarial, ele viria atrás de mim com aquele maldito andar engraçado, meio manco. Eu não falaria nada, apenas o esmurraria a face – e vê-lo nocauteado me daria um prazer quase divino de missão cumprida. Na rua, ergueria pelo colarinho o primeiro religioso de merda que quisesse me empurrar as suas malditas verdades.

Essa deveria ser a minha explosão de fúria rumo ao nirvana da libertação. Mas pasmem, eu apenas ri.