Devaneios morais

Somos a corja de todas as espécies, ao tempo que também somos o melhor de tudo ao redor.

Somos o asco, o vômito e a merda que transborda do esgoto, ou podemos ser a mais bela flor, que exala perfume no cume de uma montanha linda, num lindo vale, como tantos deste planeta lindo.

Nosso lado mais belo está na generosidade, no dar sem esperar nada em troca. Sem prêmios e sem recompensas. Sem um milhão e meio de reais para receber ao fim da nossa jornada, nesse reality show chamado vida. O amor é a união de tudo o que é bom, sintetizado numa única palavra. E essa deve ser uma escolha baseada na razão de fazer a vida pulsar e continuar…

Nosso lado mais podre é aquele que pulsa internamente e fingimos esconder, fingimos não existir. É a ganância. É o ódio. É a intolerância. É a “inconsciência” do ego. E nós somos essa “inconsciência”, que nos engole, rumina e ao fim nos cospe. E o resultado nós fingimos odiar. Como o político que rouba dinheiro público, mas é apenas uma versão com mais poder do que somos nós mesmos. Nosso reflexo no espelho da ganância, que alimenta o ego de ser e poder mais que os outros.

Somos o amor e somos o ódio. E o peso que desejamos fazer pender a balança, depende de nós e do que fazemos para alimentar cada um desses lados .

E por isso, antes de julgar alguém, julguemos a nós mesmos. Temos que entender que somos amor, mas nunca podemos esquecer que também somos toda a carga negativa dessa “inconsciência”. Não somos seres distintos – como prova a ciência -, somos uma única raça, humana e compartilhamos no nosso DNA e nas nossas convenções e convicções morais, tudo o que há de melhor e pior nesse planeta.

Sigamos, então.

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Cold Wheels: voando a 20 Km/h

Na propaganda da TV e do jornal, o último lançamento de um carrão possante. Mais caro que toda a grana que muita gente terá recebido em toda a sua vida.

“Para o clima perfeito o carro perfeito”, dizia o anúncio. “Luxo, praticidade e conforto. O mais moderno sistema de ar-condicionado que pode ser utilizado com a capota aberta do seu conversível. Enquanto o vento te sopra os cabelos, você não sua. O sol enfim bronzeará sua vida como num verão sem fim.”

E assim, ele, privilegiado como sempre foi, comprou o seu modelo modernaço, como sua pessoa que sempre transbordou elegância.

Agora finalmente se sentiria um pouco mais exclusivo, com sua máquina que rasgaria estradas, com o som lá no alto, óculos escuros no rosto, protetor solar fator 50 e belas garotas de corpos quentes, como num filme hollywoodiano. “A Califórnia é aqui”.

Enfim chegou o dia de estrear a sua machine gun em quatro rodas, que como uma metralhadora, fuzilaria o ego alheio, enchendo todos de inveja.

Entrou no carro, baixou a capota, ligou o poderoso ar, regulou o retrovisor, ligou o som com uma música eletrônica quase ensurdecedora, deu tchau ao vendedor e saiu.

Ao dobrar a esquina, passou as próximas duas horas preso no trânsito. Seu cabelo não voava ao vento, como na propaganda. Passou a sentir um pouco de inveja de quem o ultrapassava em bicicletas baratas.

Horas depois, finalmente chegou em casa. Sem empolgação guardou a máquina de pintura reluzente numa garagem escura, tão parada quanto as vias pelo qual ele quase não se locomoveu.

No dia posterior, estava lá estampada como propaganda dentro de uma revista exclusiva voltada para a classe alta: “para a paisagem perfeita o transporte perfeito. Voe no seu próprio helicóptero, aproveite a vista e chegue cedo aonde você quer chegar”.

Abriu enfim um sorriso.

“Agora vai”.