Esperança tragada

Ali, onde os homens viram bichos
Sob viadutos que no topo levam automóveis
E embaixo levam sonhos embora
Ele deu um trago de pedra numa lata de coca-cola.

E no rótulo impresso um nome desgastado pelo tempo: Esperança.

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O CIDADÃO DE BEM

O que é o cidadão de bem? Qual premissa define o seu caráter?

O título muitas vezes advêm das próprias pessoas. Elas se autoproclamam de cidadãos de bem, baseadas obviamente no seu ego inflado.

“Sou bom, sou do bem, sou maravilhoso, eu sou quase Deus, porque na verdade, Deus aprova as coisas que defendo. Portanto, sou parâmetro para uma série de definições, que vão desde o que considero bondade, honestidade, ética, até coisas como gosto musical e ligações esdrúxulas com teorias sobre desenvolvimentismo e toda sorte de coisas que não encontram o menor eco dentro de um prisma racional. Sou assim.”

São cidadãos de bem, ou de bens? Muitos dos que se autoproclamam assim, acham que o pobre é vagabundo. É a velha história do Deus da meritocracia. É engraçado. O pobre que não ascendeu, seria apenas um vagabundo. Já os cidadãos de bem que não conseguem enriquecer como seus ídolos que estampam capas de revistas como a Forbes, não são considerados por eles mesmos como vagabundos, mas… vítimas de um estado opressor. A conexão é simplesmente vergonhosa, absurda… desconexa.

Haveria uma ligação entre se achar o último espécime que valeria a pena ser salvo na terra e, no fundo, fazer coisas erradas, sem achar que está errado?

Cidadão de Bem, era o nome do jornal publicado pelo grupo supremacista branco estadunidense, Ku Klux Klan. Sim. Good Citizem. De fato, eles se achavam cidadãos de bem, contra um mundo corrompido pela impureza racial. Afinal, o homem teria sido feito à imagem e semelhança de Deus. E se Jesus era caucasiano nas representatividades imagéticas da literatura religiosa e da arte que correu o mundo, os brancos eram os descendentes do Deus vivo, do Cristo. O resto? Bem. O resto era o mal.

E essa percepção de bem e de mal é que é a fagulha para essa classe de gente, que se acha absurdamente boa, verdadeiros cavaleiros templários na defesa do Santo Graal: uma família nuclear, patriarcal, e na maior parte das vezes temente a Deus. Temente. Estranho temer algo que dizem ser a divindade, a força, que contem em si, a maior perfeição e bondade existente hoje e sempre, em todo o universo. Não faz o menor sentido.

É verdade que se muitos dos que se dizem cidadãos de bem, seguissem ao menos algo dos 10 mandamentos, que dizem saber de cabo a rabo, até que poderiam, em partes, exalar o mínimo aroma de bondade. Mas, parece que não.

Vamos ver dois que teriam alguma relevância no funcionamento da sociedade. Se tem lá “não matarás”, o cidadão de bem diz que “bandido bom é bandido morto”. Se tem lá “não levantar falso testemunho”, o cidadão de bem, muitas vezes age como troll na internet, compartilhando notícias falsas a todo o momento, para tentar atingir qualquer objetivo que seja.

Por aqui, foram sempre os cidadãos de bem os agentes que impuseram uma agenda em defesa dos interesses da elite. No descobrimento do Brasil, aliás, vamos por o termo correto, na invasão europeia do Brasil, os brutos assassinos que vieram, traziam dentro de si o estigma de cidadãos de bem, afinal, estavam a serviço da Coroa Portuguesa, da Família Real. Eram religiosos. Vinham com religiosos nas caravelas.

Ao encontrarem os índios, tiveram outra grande atitude ética de um verdadeiro cidadão de bem. “Vamos catequizar essas pobres almas selvagens”. Como são inferiores, seres desprezíveis, podemos exterminar quantos quisermos, afinal, a causa é maior: encher Portugal de dinheiro.

Depois de um tempo que aqui estavam, os cidadãos de bem, verdadeiros selvagens europeus, escravizavam os índios que restaram. Escravizavam os negros trazidos à força da África. E escravizavam suas esposas. Sim, órfãs vinham obrigadas de Portugal, para casarem com esses homens brutos, quase desprovidos de sentimentos. Logo, eram estupradas por eles, que também estupravam as índias e as negras. Para manter a suposta ordem civlizatória: tronco nos escravos. Aí vieram os senhores de engenho. Aí vieram os bandeirantes.

E assim a sociedade brasileira foi se formando. Chegamos ao século XX, com duas fortes ditaduras. O Estado Novo de Getúlio Vargas, e a Ditadura Militar, com torturas, assassinatos e desaparecimentos… e estupros, sequestros e toda a sorte de desgraças. Fleury? Cidadão de bem! Carlos Alberto Brilhante Ustra? Cidadão de bem!

É óbvio que a herança seria brutal. Já que ela é o reflexo de nossa história de brutalidades, genocídios, torturas e estupros. Aí aplaudimos coronéis Telhadas, aplaudimos gente torturada e assassinada em postes, urramos de prazer ao ver um helicóptero metralhar uma favela, e beijamos as mãos de gente como Bolsonaro, Feliciano, Malafaia.

Sim, eu sou marginal e tenho medo do cidadão de bem.

A crise da crise

Estamos vivendo uma forte crise, sim. Uma forte crise moral. Que passa o metrô em cima de corpos, para o lucro não parar. E amarra suspeitos em postes, por vingança, para matar. Pelo corpo desfalecido e dilacerado pelo trem, não há choro dos cidadãos de bem. Afinal, ele era apenas um ambulante, pobre, sem bens. O que já é praticamente sinônimo. Como são sinônimos a indignação, a seletividade e o ódio de classes.

Quem ousou querer amarrar o maquinista num poste? Ninguém. Pois fez o trabalho de capitão do mato, o gari de corpos indesejáveis. Pois a cidade não para e a economia nunca poderá cessar. “Ainda mais com essa crise econômica”, disse um passageiro. “É culpa dos corruptos”, disse o diretor da companhia do metrô enquanto colocava a cabeça no travesseiro, para dormir. “Esses políticos não têm escrúpulos”, pontuou e logo depois apagou. E a vida seguiu… para alguns.

De fato, a moral é um metrô propositalmente desgovernado.

O poste no lugar da cruz

Chutes, socos e garrafadas num suspeito amarrado num poste, que já não dá energia como antigamente, muito menos oferece uma luz no fim do túnel.

Já a morte, essa insuspeita, espreita ao lado, querendo ser agente ativa na lamentável cena. Mas ninguém lamenta, a não ser o pobre coitado, seviciado, quase crucificado. Mas, certo de que nunca irão escrever um livro sobre a sua vida, e que em dois dias não lembrarão do seu nome. Imagina em milênios?

Caso isso se confirmasse, no ano 4015 estaríamos amarrando outros coitados em objetos fálicos, tudo em nome daquele outro suspeito assassinado dois mil anos atrás, e dos seus seguidores que se auto-intitulariam de cidadãos de bem. Alguns, claramente de “bens”.

Não se engane. O novo cristo já foi “postificado” e você aplaudiu.