Tomado pela vida

Todos os dias, manhã cedo, o ônibus para no sinal. Ao lado, num fiteiro azul, um homem com seus sessenta e poucos ou tantos anos, já está sentado, marcando uma cartela de jogo de azar autorizado pelo governo. Bebe sua cerveja gelada, envolta numa camisinha de garrafa, que a protege do calor externo. Bebe, já nas primeiras horas do dia. Seu dejejum. Na camisa humana, a marca de uma cachaça, a 51. Pendurada no pescoço, uma máscara hospitalar. Não fosse a tez amarela, olhos fundos, fraqueza aparente, poderia ser apenas uma caricatura qualquer evidenciando doença na alma. Só que o homem está doente, fisicamente. Aquele homem está morrendo. A imagem é clara, como se levasse um outdoor na testa dizendo “já que vou partir mesmo, foda-se”. E como que praticando eutanásia, bebe com vontade doses cavalares de milho transgênico não maltado, de uma cerveja barata qualquer, como se quisesse tomar para si, o que lhe resta ainda de vida, como fez grande parte de sua existência, pela certeza de que há tempos já havia sido tomado por ela.

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Miró

Poesia completamente marginal, periférica. Poesia dos mercados públicos do Recife. Sem pompa. Academicista das ruas. Aluno dos becos sujos do Centro, que fedem a mijo e lembram uma cidade indiana. Professor das ruas de barro das periferias, repletas de meninas e meninos descalços, que lembram a África Subsaariana.

Cadeira cativa nas academias de literaturas oficiais? Não. Mas convenhamos, um banco de praça cativa muito mais!