BANDEIRA BRANCA

Capítulo 1 – Uma bandeira que ousa

Corria desesperado, cambaleante, na rua estreita e irregular. Na perna, um tiro de onde jorrava sangue, deixando um rastro que ia se diluindo na fina camada de água, formada pelo chuvisco que teimava em não parar. No ar a respiração entrecortada e a dor amputada, para não chamar a atenção.

Aquela noite de verão carnavalesco, não estava tão quente assim, como o normal na cidadezinha da Zona da Mata Sul Pernambucana. Fazia meio ano, desde que uma bandeira branca havia amanhecido no meio de duas torres de alta tensão, tremulando, como que desafiando a Ditadura que já entrava quase no seu terceiro ano de existência, fato que mudou por completo a rotina do lugar.

Meio ano, desde que Raul, filho pródigo da cidade, havia coincidentemente voltado da capital, formado em jornalismo, pronto para, impulsionado pela ousadia daquela bandeira, também ousar e desafiar a Ditadura, com o seu jornal , mesmo que numa cidadezinha tão desimportante. Seis meses de intervalo entre uma vida profissional promissora e um beco estreito, por onde agora se esgueirava, tentando sobreviver.

Gladstone havia se transformado de um delegado pacato, que conhecia muita gente na cidade, a um paranoico anticomunista, depois de passar quase um ano em São Paulo, para treinamento na Polícia do Exército. Aquele havia sido o ano do estouro do regime ditatorial, que tomou o poder, logo após a eclosão de uma breve Guerra Civil, movida por questões políticas no Brasil. E ele não deixaria barato que, na sua cidade, os vermelhos tivessem a ousadia de fazer uma crítica ao regime, que era a forma como se referia à nova Ditadura Militar.

A coisa era tão surreal, que para alguém colocar a bandeira ali, num fio de alta tensão, no meio de duas torres, era praticamente impossível sem levar uma descarga fatal. Então Gladstone resolveu montar seu exército particular. Pediu permissão e verba à Brasília. Juntou quatro capangas, conhecidos matadores de aluguel. Gente bruta, acostumada com sangue nas mãos.

A devassa começou no pequeno escritório, que representava a Estatal de Energia, na região. E muitos funcionários foram ao pau de arara. Choques. Porretes na cara, testículos, vaginas, ânus. Choques na têmpora. Nada.

Logo as suspeitas se voltaram para Raul e seu jornal que ousava ousar, onde ninguém deveria levantar a cabeça, sem pedir licença. A pequena loja de uma galeria, na Rua Primavera, número 1968, era o local onde funcionava o pequeno veículo de notícias. Um editorial de um homem só.

Raul se desdobrava. Escrevia, tirava fotos, filmava, editava, mandava rodar a versão impressa e, claro, alimentava as redes sociais e o site do jornal. E naquela manhã, ainda cedo, o estrondo na porta o assustou.

Gladstone estava com dois, dos quatro capangas, que a essa altura já seguravam Raul, o imobilizando. O delegado desferiu a primeira pancada no ouvido do jornalista. A vista ficou branca, uma dor pontiaguda tomou o local. Um zumbido incessante foi crescendo e dominando até a sua mente. “Fala, porra!”. “Fala logo, seu comunistinha do caralho!”, gritava.

“Fa-falar o quê?”, perguntava Raul, gaguejando. Um murro forte de Gladstone interrompeu a sua pergunta, fazendo jorrar sangue pelo supercílio rasgado. “Você acha que eu não sei quem você é? Mas um comunista filho da puta, que quer subverter por completo a nossa sociedade. Quer trazer de volta os corruptos vermelhos ao poder?”, perguntava, gritando, enquanto a baba viscosa, escorria, lembrando um Dragão de Komodo.

A tortura seguiu-se por todo o dia. O fato é que Raul não tinha a menor ideia de como aquela bandeira foi parar ali. Às 17h35 daquele dia, ele foi deixado desacordado no local. Às 18h23, foi encontrado por seu pai. Levado ao hospital da região, logo foi transferido para a capital, onde ficou internado por duas semanas. Duas costelas quebradas, perfuração no pulmão, hemorragia interna e concussão cerebral.

Capítulo 2 – Fruto do meio

Saindo do hospital, seu pai implorou para que ficasse na casa de sua tia, lá mesmo no Recife, até as coisas se acalmarem. O jornal impresso deixara de existir, mas Raul decidiu coloca-lo novamente no ar. O site foi reativado, assim como as postagens voltaram às redes sociais.

Raul sabia que havia tomado um passo sem volta. Antes, havia entrado em contato com alguns grupos dissidentes. Estava tudo armado. Naquela mesma noite, se esgueirou pelo quintal da tia, pulou o muro de trás e sumiu.

Capítulo 3 – Voltando para casa 

Depois de alguns meses sendo treinado, Raul foi designado a voltar para a cidade natal. A missão: derrubar Gladstone e tomar o local. Voltou escondido, perto do carnaval. E chegou a casa na calada da noite, dando um tremendo de um susto no seu pai. Naquela noite, como criança, dormiu com a cabeça encostada no colo da mãe, enquanto recebia cafuné. Aquele colo, quente e acolhedor, lembrava instintivamente o ventre materno. “Como era bom”, pensou.

Ao amanhecer, escondendo suas intensões, disse aos pais que voltara por saudade, mas que não podiam dizer a ninguém que ele estava ali. Ninguém mesmo. Era perigoso, afinal, o delegado quase o havia matado meses antes. Seus pais, felizes, saíram para fazer compras. Ao sair do banho, ouviu o barulho que lembrava o de um gás escapando de uma garrafa de refrigerante. O cheiro doce e inconfundível de guaraná tomou conta da sala. Cheiro de infância. Para acompanhar, um bolo de rolo, que seus pais haviam comprado. “É para comemorar sua volta”, disse a mãe, com seu sorriso acalentador e inconfundível.

Raul ficou dentro de casa até o carnaval. Era esse o plano: pegar Gladstone desprevenido, durante a festa. Nunca quisera o caos, a guerra, o embate corpo a corpo. Preferia a briga de ideias. “Mas, em situações assim, alguém deveria se sacrificar pelo todo.” Aceitou, sem mais delongas.

Capítulo 4 – De como as coisas são

E chegou o dia. Preparou a pistola 9mm. A mão começou a tremer. “Merda. Odeio armas”, pensou. Colocou na cintura. Por cima, vestiu-se de Papangu, fantasia usada nos carnavais em Pernambuco. Assim, no meio do carnaval, não saberiam quem ele era.

E aquela noite era especial. Era o domingo de carnaval, e todo domingo da festa de momo na cidade, saía um bloco justamente de Papangus. Raul foi no meio, seguindo a multidão, como numa procissão completamente profana e pagã. “Meu Deus! Como isso é lindo”, pensara.

Ao passar perto da delegacia, conseguiu se esgueirar para um canto escuro do muro. Pulou com certa destreza. Estava nervoso. Muito nervoso. Conseguiu ver por uma brecha dois capangas e o delegado entornando uma garrafa de uísque barato. A suposta lei, em serviço, completamente embriagada. “Porra! É minha chance”.

Entrou com cautela, apontou a arma para as costas de um dos capangas. Tremeu e… não conseguiu atirar. “Puta merda. Não sou um assassino. Não sou um assassino”, pensou. PÁ! Um disparo foi ouvido. Algo atingiu a perna de Raul. Foi Gladstone, que mesmo bêbado, se aproveitou da hesitação de Raul, que agora corria para fora da delegacia, pulando o muro e tentando despista-los. Uma garoa fina começava a cair.

A roupa de Papangu ficou para trás. Entrava nos becos e ruelas. Já havia perdido muito sangue. Tonto, Raul ia deixando o medo lhe tomar por completo. Começou a ficar fraco. Muito fraco. Achou um terreno baldio e por ali ficou, escondido entre arbustos, lama e fezes de gado.

Capítulo 5 – Jaz um corpo no mato. Numa praça, um nome é eternizado

E, o dia amanheceu. O galo cantou. E Raul, não mais acordou. Morreu ali, escondido, com a lama já seca, assim como a merda que de tão misturada, não dava para distinguir visualmente. O tiro atingiu a veia principal da sua perna. Sangrou até a morte. Morreu com frio, numa cidade tropical. Um reforço policial havia sido enviado para ao município. E pelos serviços prestados, o desgraçado do Gladstone ganhou uma folga, naquela segunda-feira de carnaval.

Naquela mesma manhã, um bloco vinha descendo a rua. Justamente a rua que passava na frente do terreno baldio, onde agora jazia sepultado e escondido o corpo de Raul. Gladstone seguia no meio, segurando uma garrafa de cachaça, vestido de mulher, enquanto a banda de frevo tocava um clássico de autoria de Dalva de Oliveira, e a multidão, assim como o delegado travestido, entoava: “Bandeira branca, amor / não posso mais / pela saudade que me invade eu peço paz”. Que ironia! A turma passou e ninguém notou o corpo, que só fora descoberto no fim do dia, dilacerando o que restava ainda da vida de seus pais.

No outro dia, a bandeira branca foi substituída por uma bandeira vermelha. Ao lado, enforcado, os corpos de Gladstone e dos quatro capangas. A resistência havia finalmente tomado a cidade. Vitória! Mas na verdade é como se não houvessem vencedores. Na barbárie, todos perdem. Se não perdem a liberdade ou a vida, perdem um tanto de humanidade. E uma coisa era certa: no ar daquela manhã, havia tudo, menos paz.

Em paz, talvez só tenha ido embora Raul, que hesitou matar, mesmo em nome da liberdade. E por falar em nome, no lugar do terreno baldio, seis meses depois foi erguida uma praça, batizada com o nome de Raul.

É, a resistência de forma sistemática havia tomado de volta o poder no Brasil, e a vida seguiu. Muitos jovens nasceram e nunca souberam quem havia sido aquele tal de Raul.

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Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”
– Friedrich Nietzsche.

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Palestina

Ela nasceu e logo seus pais a batizaram de Palestina.

Palestina sempre foi astuta, sem levar desaforo para casa. Não aceitava se subjugar a ninguém. Todos diziam: “como é forte a Palestina.”

Mas um dia, Palestina foi aprisionada em cárcere privado. Foi violada, invadida, estuprada, agredida, por um homem de nome Israel. A liberdade daquela menina o incomodava.

Seu plano, era subjugar a Palestina de tal forma, que ela passasse a se anular enquanto gente. Seu plano era fazer com que a Palestina perdesse sua identidade, sua vontade de viver, sua determinação em existir.

Todo dia era a mesma coisa. Agredida, humilhada, a Palestina renascia mais resiliente. Amanhecia a cada dia, com mais vontade de viver e de gritar: “meu nome é Palestina e isso significa que eu sou livre.”

E sonhava, dormindo ou acordada, com pedras atiradas em tanques de extermínios, e contra a opressão perpetuada como vergonha, sob as vistas grossas de distantes vizinhos.

Mas a Palestina nunca desiste. E como poderia? Palestina é mulher, e por isso, carrega dentro de si uma força que tem o poder de renascer a cada morte diária.

A Palestina é mãe, filha, irmã, órfã, santa, puta, guerreira. A Palestina nasceu livre. Libertem a Palestina!

Dois passos para o horizonte

O céu desabou e com ele fomos ao chão
de solo áspero e terra seca batida.
Alguns grãos de pedra nas feridas
nunca antes lavadas, apenas escondidas
nos mostram nossa vulnerabilidade
refletida no espelho da sinceridade alheia.

São dias em que angústia nos toma de assalto
enquanto as nuvens da frustração encobrem o sol
deixando passar um raio de esperança
apenas para se sentir ao longe o gosto da felicidade.

E se eu te dissesse que nenhum mal é de fato eterno?
Acreditarias ou acharias utopia demais?
E se eu te contasse que nenhum sonho é inatingível?
Sonharias e então farias o que ninguém faz?

Recife, 2006