Chama!

Na esquina, chamas
Que nos chamam
E queimam.
E no meio da pista, gente
E a gente atrasado
Irritado
Pela via que não anda
Como se cotidianamente
Andássemos
Para algum lugar
Senão o abismo
Da mais pura emergência
E urgência
De irmos
Inebriados
E viciados
Em tripalium
E ansiedade para acumular
Enchendo nossas casas
E esvaziando nossas almas.

E a vida segue
Nas ruas
Com barricadas de pneus
E olhos cegos
Que não enxergam verdades de televisão.

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Sinal Fechado

Um jovem faz malabarismo no sinal
Carros param, a vida passa
Só não passa a fome
Nem a angústia de se mostrar e não ser notado.

Cortinas fechadas no picadeiro na vida
Senhoras e senhores, o show não vai começar.

Amar é resistir

Nas entranhas do existir, devemos muito ao amor, como já disse o neurobiólogo chileno, Humberto Maturana, que com muita sensibilidade expôs suas biologias do Amor e do Conhecer, mostrando como o amor, não necessariamente o de um casal, mas a reciprocidade da empatia, que é o aceitar o outro como um ser legítimo em sua vida foi preponderante para o nosso desenvolvimento social.

O amor foi o que revolucionou a humanidade. Foi a força que fez despertar o interesse de alguns seres, em relação aos outros seres. Os animais, considerados racionais ou não, são dotados de amor. Um amor biológico. E, foi essa aceitação que fez existir a possibilidade de coexistirmos e formarmos duplas, matilhas, bandos, grupos, vilas, cidades, países. De produzirmos e consumirmos cultura. De evoluirmos.

Então, se apenas existisse o ódio, que é a não aceitação do outro como um igual, nada disso teria se desenvolvido. A terra seria ainda a terra, sem vida dotada de amor. Sem vida dotada de uma inteligência simples, biológica e, muito menos avançada.

Quando abraçamos o progressismo, estamos, talvez, abraçando a nossa natureza mais intrínseca, biológica, que nos diz para seguirmos. E seguir, enquanto seres-humanos que somos é agir, mesmo que de forma inconsciente e natural, pensando na nossa perpetuação enquanto espécie. E só há uma forma de nos mantermos por aqui: o amor. E não há nada mais progressista que aceitar o outro, como um outro legítimo em nossas vidas. Fazermos isso é estarmos abertos às múltiplas diferenças que nos cercam e aceitá-las.

Ironicamente, grupos, ao longo de nossa história têm usado justamente o ódio como meio para supostamente perpetuar espécies. O racismo, o machismo, a homofobia, a intolerância religiosa, o ódio de classes e a exploração, são exemplos de incontinuidade, mesmo que os que defendam visões assim, sempre falem justamente sobre continuidade.

Ser progressista é defender causas nobres, causas de amor. É entender que do outro lado não há um inimigo, alguém a ser abatido, mas transformado. E não há força mais nobre para a transformação do que o amor.

Enquanto nas ruas os praticantes do ódio ironicamente formam grupos que agem de forma a nos apartar do que eles chamam ser a sociedade da perfeição deles, do deus deles, seja o deus do teísmo religioso ou do mercado, sempre devemos ter em mente algo do que nos orgulhar: o amor. A gente gosta é de agregar!

Lembrando que amar não é se omitir. Mas agir de forma racional e, claramente, fazer o que deve ser feito. Afinal, amar é resistir. Resistiremos!

Nós: medievais

Os diatribes que ressoam nas ruas e ecoam esse cinismo tão dotado de uma frágil moral, que nem de longe reflete o âmago de seu autor, ajuda a construir estradas sem saídas e pontes estaiadas que no topo levam a falsa modernidade e embaixo abrem caminhos para o mal seguir, navegando em águas turvas, perigosas, cheias de tubarões.

O Grande Branco, o predador mais temido dos mares, devora as presas pelo caminho enquanto troca de dentes. A fome insaciável o faz seguir. E ele não para. É o pré-histórico assustadoramente evoluído. Uma máquina de matar. E quando chega em locais de tão frágil ecossistema, devora quem ousa se aventurar nas águas em que se encontra.

Esse etnocentrismo que regurgita preconceitos e é tão pobre por venerar o geocentrismo da mais pura ignorância, cega cada vez mais os pobres coitados que se acham o centro de qualquer coisa relevante, ousando caráter imaculado e divino. São pessoas com cultura de tubarões de mercado ou profetas-pastores-papais que pré-matam pecadores, ou ajudam a absolvê-los em troca de propinas nada santas, provando que não evoluímos em 500 anos.

Somos ainda uma sociedade que nega Copérnicos e, de longe, corremos o risco de nunca conhecer novos Newtons. Einsteins? Esqueça! Aqui quem manda são Bolsonaros, Malafaias e Felicianos. O idiocentrismo é a ciência que nos move, nos jogando no lixo da história, enquanto os novos inquisidores defendem a terra plana. “Ave Olavo de Carvalho”, gritam.

Copérnico, desculpe. Câmbio e desligo.