Cidade Estuário

Que lindo o Recife Profundo,
O centrão da cidade,
Com seus riachos de esgoto,
Onde no vai e vem do vuco vuco
Comerciantes negociam sonhos
Por R$ 1,99.

Aqui o arco-íris é de poluição
E os unicórnios são cavalos magrelos
Que puxam carroças,
Maltratados,
E em cima das árvores não tem esquilos.
Aqui as árvores tem baratas,
Que passeiam por entre galhos e fios de alta tensão.

E a tensão fica relegada ao povo,
Que se desloca em velhos e caros coletivos,
Fazendo malabarismos para sobreviver,
Enquanto seres individuais
Passam em seus carros gelados
E fingem não ver.

Aqui é quase tudo preto,
Visceral,
Pés, chinelos, cyclones…
Sem atendimento VIP,
E gourmet
É só uma palavra estrangeira,
Difícil de ler.

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The Voice kids

A boca amordaçada,
O canto nunca cantado.
Uma vida sem aplausos,
A cadeira do juiz eternamente virada.

Venceu!

Martelo batido na mesa,
O prêmio sentenciado:
Uma temporada na Febem
E um futuro brilhante no PCC.

Postal

Recife,
Quando passo por tuas pontes
E vejo a lama que margeia o Capibaribe,
E as flores que insistem em se mostrar como num cartão-postal,
Atirando beleza contra o fedor do esgoto que deságua impiedoso em ti,
E vejo na outra margem o prédio da Polícia Civil
Que antes sediava o DOPS,
Percebo que os gritos abafados de dor
Ainda ecoam em tuas ruas,
De gente torturada pelo cotidiano
À espera de uma Aurora que nunca vem.