Transposição

Chove lá fora
E aqui dentro o tempo estia
Céu da boca fechado
Coração semiárido
Boca cerrada
Lábios de para-raios
Os dentes careados
Pela maresia da saliva
Mar morto
Língua morta
Aftas, feridas
Abertas na América Latina
De nossas vidas

Transpor e fazer o rio correr

Páscoa

José Jesus bebia,
Bebia muito.
Não tinha posses:
Um barraco,
Uma bicicleta
E a disposição para a bebida.
Era um cara bacana.
Gostava de farra,
De amigos,
Viados,
Putas
E travestis.
Abraçava a todos!
Jogava sinuca,
Dominó
E carteado.
Quando sóbrio,
Prestava serviços braçais.
Pintava paredes,
Consertava coisas,
Ajudava em mudanças,
Que não rolavam em sua vida:
Sem contato com a ex esposa
E sem contato com os filhos,
Ele só seguia.
José Jesus não era perfeito,
Ele era humano.
Sorriso largo no rosto,
Alma de vagalume,
Sempre acendendo e apagando ao final do dia.
Os olhos amarelos,
Que vertiam sorrisos
E cachoeiras de saudades.
José Jesus não tinha 33 anos.
Ele tinha 62,
Quando numa sexta-feira santa
Saiu do bar e foi atropelado por um motorista também bêbado
Que fugira sem prestar socorro.
José Jesus não ressuscitou no terceiro dia.
Não. Bêbados não ressuscitam.
Eles têm uma dívida enorme com os santos ao qual não ofereceram o primeiro gole.
Bêbados viram histórias de bar.
Como seu velório,
Que foi no bar/segunda casa
Cheio dos mesmos amigos, viados, putas e travestis.
Copo de cerveja na mão,
Samba na radiola de ficha,
E a sinuca aposentada
Como se aposentam camisas 10 memoráveis
De times históricos de futebol.

Efêmero

E na espera pela reciprocidade do que me atravessa o peito
Me entrego a corpos efêmeros
Em gozos findáveis como a tarde que sempre cai
E ao amanhecer, sempre acordo o vazio
Que teima em fazer casa no meu peito e na minha alma
E no fim, sempre sigo sozinho

Ágatha

Ágatha não era Christie.
Não foi dela que saiu uma história de crime, como no Expresso Oriente.
Ágatha era a vítima, baleada numa van periférica, no Alemão.
E não era sequer a Alemanha, que confinava gente em trens a caminho da morte.
Era um complexo de guetos muito maior do que o de Varsóvia, que confinava gente em transportes irregulares e espaços indesejáveis, sendo caminho e destino de morte.
Não estamos na primeira metade do século XX.
É futuro que faz cosplay de passado e encontra na ignorância, a fé irrestrita em deuses que fazem apologia a assassinatos.
Snipers apóstolos com rifles cajados, que oram: dedo no gatilho, para transformar corpos negros em vinho tinto de sangue.
Ágatha não era Anne Frank e nunca estivera distante geográfica e imageticamente.
E isso, a classe média não perdoa.

Quarup

Parece que chego ao fim,
Hoje ou qualquer dia.
E, se olhar no espelho
E ver fantasmas,
Parece ser agora cotidiano.
Quando o âmago dói,
Cria crosta, calcifica dor,
Pesa alma,
Arqueia costas.
Cotovelos secos,
Solitude não egoísta
É a minha lei.
No meu condado,
Sou delegado,
Xerife sem estrelas,
Juiz de minhas derrotas,
Acusador e réu.
Debato monólogos infindáveis
E sempre ganho de mim mesmo.
Ao fim, sempre um troféu de lata,
Ansiolítico mental,
Placebo de alma.

O Super Homem está nu

O super homem está nu
Ontem, gigante, inflado
Em gramados e corações
Toga e capa preta ao vento

O juiz estrela era divindade
Um messias, salvador da pátria
De uma pátria órfã
De um messianismo utópico

De coragem espartana e coração de Sassá Mutema
Hoje, sobrou a moral baixa
Que desce como lama de rejeitos
Contaminando tudo

E no espelho da vaidade
Tenta suas últimas cartadas
Que se mostra, sem-vergonha
Em um triste monólogo de um palhaço decadente

O circo está vazio
Só sobrou ele e seu ego