DeLorean

quero gás, para cozinhar a esperança
ou gasolina, para dar combustível à mudança
ou como soaria na voz de Chico:
quero cheirar fumaça de óleo diesel,
me embriagar, mas que ninguém esqueça,
que o país do futuro
tem a velha mania de voltar no tempo,
com saudosismo delirante
que faz usar a máquina do tempo, como caixão!
e que jaz de tempos em tempos, a sete palmos do chão.

mas cova caiada
não permite enraizar nada.

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Nero-Estado

prédio implode,
arrasta esperança em abismo
e sobra mais nada.
e o herói, como que escalando o Everest,
vai abaixo com uma montanha de entulhos.
Ibeji, Erês, Cosme e Damião,
Jazem agora debaixo de concreto.
o herói se sacrificou para salvar o futuro
que reside na inocência das crianças.
o World Trade Center é aqui!
atentado em forma de descaso,
especulação, indireto-assassinato!

O gatilho é um botijão de gás.

República Federativa do Ódio

Primeiro o ódio espreita
E se deixa ver por entre brechas,
Depois como metade
Que se traveste de dualidade.
Depois mostra a cara,
De riso frouxo,
Dentes salientes,
Baba escorrendo
E soluço débil.
Nas costas, mãos,
Nas mãos a raiva,
Que como faca
E como punhal
Perfura carne,
Rasga tez,
Da epiderme,
Derme,
Vasos,
Tendões,
Artérias,
Ao coração.
E quando vemos
Não sobra nada!
Uma nação que ama odiar!
Que para se enganar,
Faz transplantes de córneas
Mas se frustra quando percebe
Que não existem transplantes de alma.

Che 2017

Che,
Há cinquenta anos te silenciavam.
Há cinquenta anos te paravam.
E como você sabe,
Há cinquenta anos o Brasil era uma ditadura.
Um ano depois veio o AI-5, Che.
Tão bem quisto por quem te odeia…
Os mesmos que te acusam de assassinatos,
Paredóns,
Perseguição a negros e gays, Che.
Dá para entender algo assim?
E é 2017, e não sei se sabes,
Mas não existem carros voadores, teletransportes
E muito menos justiça social.
Talvez na história da humanidade, o mundo nunca foi tão desigual.
É que o passado sempre volta, Che.
Sempre volta para assombrar aqueles que sonham com o futuro,
Assim como foi você.
Humano, demasiadamente humano,
Mas com coragem de mil meninos de MBL
Que sentam o rabo no sofá
E conspiram contra uma nação.
Que falta tu faz ao mundo, Che.
Ter alguém que carregue o peso desse mundo nas costas,
E que segue, com acertos e erros, mas sempre com sinceridade.
E sabe porque não há mais um Che, Che?
Porque sempre preferimos ter alguém que sangre por nós,
E no fim, nos achamos tão revolucionários…
Ainda mais agora que podemos parcelar camisas com teu rosto e nome estampados,
Nos cartões.

fascisti

O (M) de morte, espreita
O (B)eco da fome e da realidade.
O (L) dos larápios que se pretendem apartidários
Vedam a boca, amarram os pulsos, concretam os pés e jogam no rio
O teu povo mais pobre, Brasil.
Guerreiros em insistir em sobreviver
Mas com histórico de servidão e fé inabalável,
Se afogam sem direitos
À espera de um milagre divino
Ou uma mão para lhes salvar.

Mas não há verba para botes salva-vidas
E deus foi privatizado.

Altruísmo TV SHOW

Nesse concurso que é a vida
Cujo a morte pede dados curriculares
Coçamos as mãos
E reviramos bolsos
Para subir no pedestal da recompensa

Mas é só dois reais
Ou uma moedinha
E, quem sabe uma roupa velha
Suja
Rasgada
Ou um quilo de alimento não perecível
Que já pereceu há tempos
Comido pelos vermes de nossa própria hipocrisia

Eu não quero subir ao teu céu
Habitado por ganhadores do reality show do teu deus
Em que atores fingem se importar
Mas só quando no fim
Há o que ganhar:

Uma casa no céu
Ou um harém cheio de virgens

E qual a diferença, afinal?