Azuleja(dor)

Azulejavida
Azulejador
Corta rente, na carne
Cola na frente
Do prédio
Perfeição de computador

Humano
Demasiadamente
E humanamente
Com pouca memória
Placa mãe ausente
E sem processador

E por não processar as dores
Demônios e Cavalos de Tróia
Teve a alma hackeada
Pulou Pup-Up de ódio na tela
Caiu na deepweb da moral
Matou, foi preso e se azulejou

Como um túmulo
De cemitério tropical
Ou prédio de arquitetura duvidável
Azulejado
Feio
Brega e assustador.

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dezesseis

dezesseis anos x trinta e três homens
dezesseis primaveras x trinta e três estupradores
dezesseis utopias x trinta e três violadores
dezesseis vidas x trinta e três matadores

uma menina
que de dezesseis sonhos
ganhou trinta e três mortes
diárias
por trinta e três monstros

monstros são homens
homens são monstros
debaixo da cama
de nossos próprios medos

Mantra

Tem dias que nascemos tortos
Sem jeito
Deslocados do mundo
Com o coração apertado
Miúdo
E no espelho
O reflexo do que não queríamos ver.

Tem dias que os dias se arrastam
Nos arrastando com eles
A alma encolhida
O olhar perdido
Sem achar a estrada
Que vamos percorrer
E que conhecemos cada centímetro.

Mas sabemos ter
O dom de renascer
Hoje
E amanhã
Ou como disse a fábula rezada
E cantada
É preciso morrer para viver.

Acrofobia

Aqui do alto
Onde tudo se avista
Estamos salvos
Dos males que se escondem
E se mostram
Nas entranhas e feridas
Dos medos de nós mesmos.

Aqui no 25º andar
Nada nos alcança
Mas alcançamos tudo
Com olhos de ave de rapina
Mas com instinto de coelho
Dentro, lá dentro
De nossas tocas e de nossos medos.

Aqui onde o ar é mais puro
E nem insetos chegam
Vivemos a utopia de estarmos seguros
Expurgos do lixo
Longes do fedor
Vivendo num comercial de margarina
Com gosto de isopor.

Aqui do arranha-céu
Tudo é maior
Negamos o chão
E pensamos conversar com Deus
Enquanto existem aqueles
Que ainda têm medo de altura
Enquanto outros têm pavor.

Nas nossas Torres de Babel
A língua oficial é a da indiferença.

Em toda parte, um muro de Berlim

Derrubem os muros
Da latinidade indesejada
Das favelas cercadas
Ou da Palestina ocupada.

Muros que escondem os pobres
Quando os miseráveis somos nós
Por achar ser natural
Idiossincrasias construídas sobre covas rasas.

E a nossa humanidade sepultada
Adubará o solo
Fazendo crescer
O que chamamos de moral.

Muros são paradigmas prontos para serem destruídos.