RUAS

 

Morreu
Por defender um morador de rua,
Por defender uma travesti.
Correu para a estação,
Mas o trem do ódio o alcançou.
Ficou ali,
Caído,
Atropelado pela ignorância,
Num dia 25 de dezembro,
Numa noite de Natal.
Depois cinquenta e quatro anos de ruas,
De vender coisas nas ruas,
Apagou
Numa estação iluminada,
Cheia de gente,
Luzes e Luizes.

Triste Ruas, que não tinha 33 anos,
E nem se chamava Jesus.

*Para o ambulante Luiz Carlos Ruas, morto em 25/12/2016, numa estação de metrô paulista, por defender um morador de rua homossexual, de um grupo homofóbico.

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Sigo em ônibus velho
E cruzo a divisa de duas cidades velhas.
O canteiro destruído,
A sujeira degradante.
Vejo tudo com olhos cansados
De olhar para a realidade nas ruas
E a mentira em telas de TV.
Parado no trânsito,
Os carros são novos,
O engarrafamento não.
O monóxido de carbono também não,
Nem a desigualdade que se mostra sem vergonha.
Passamos devagar pela merda exposta
Por canais fétidos
Que deságuam no mar.
E a brisa vem,
E aqui ela fede a bosta,
Como a moral de muita gente perfumada
Que teme a deus,
Reza antes de dormir
E ama a pátria,
Enquanto a vende em troca de espelhos
E falsas promessas.
E o espelho como selfie
Maquia a face
E esconde a alma,
Tão suja e destruída quanto os canteiros centrais
das cidades desse país,
Em que o futuro
Sempre finda em escombros
De velhas casas coloniais.

Retrô é tão hype.